quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A Rainha do Lodo

A Rainha do Lodo




Crescer ao lado dela bêbada não foi o bastante, mas ela parou de beber e se viciou em lexotam 6. São oito caixas por mês e ainda tem a capacidade de chamar os outros de drogados.
Ela loucamente implorava por um barraco na favela, incapaz de viver em paz com outros parentes.
Lembro do que minha mãe dizia: “não fique com esta mulher quando eu morrer! Ela destrói tudo e todos.
Mas eu não ouvi porque mesmo sendo ela uma pessoa ruim eu a amava.

Ela era fria, seus carinhos eram piedosos e não de amor. Não ama a ninguém, nem a si mesma. Ela dizia amar a mãe, mas era mentirosa e vivia brigando com a velha, que sempre dava tudo a ela. Estava sempre apaixonada por algum homem e mandou dois anjinhos para o inferno, um de cada homem. Preservar seu corpão e a boa vida com a mãe era mais fácil do que ralar para criar seus filhos. Afinal ela já tinha roubado uma criança, pra que mais? E era da forma que ela queria, roubou para os outros criar, nunca ela, ela era para ser sustentada. A perfeita rainha do lodo, perseguida, injustiçada e mal amada.

Era assim que se sentia. Nem a macumba a libertou de si mesma nem mesmo a igreja foi capaz de fazer. O sangue de Jesus não teve poder naquela vida inútil. Não conseguiu trabalhar em a não ser por um prato de comida ou um maço de cigarros e para parentes.

Me implorou anos um barraco na favela e quando a coloquei em uma casa boa, se julgou perseguida e encheu a minha casa com os parentes que ela alegava querer distância e ainda arquitetava planos contra mim, que dava a ela roupa, comida, teto, remédios, vaidades e claro cigarros.

Lembro de quando voltei da maternidade a comida salgada que eu comia sem poder ingerir sal. E ai de mim que reclamasse, seria chamada de desgraçada e difamada para toda vizinhança. De uma casa pra outra me separei, mas sempre sustentando a louca.

Quando consegui para ela uma pensão por idade ela resolveu me expulsar da casa que é minha por direito. Passou a lamber o rabo dos parentes que a perseguiam e dar migalhas de dinheiro e trabalhar pra eles. Lógico que todos fazem o jogo dela, sai mais barato que pagar empregada. Aliás, sai de graça, por comida e pão.

Depois da vaca me difamar e me roubar, e dar sumiço na minha cachorra, coloquei na justiça e veio ela me pedir desculpas. Aceitei, afinal sou gente e tenho bom coração. Acreditei que ela estava arrependida, que não faria mais. Pois é, o umbral tá cheio de desencarnados com estas boas intenções.

Passaram dois anos e a máscara da vadia caiu junto com a dos parentes. É fácil tirar filho dos outros pra sacanear. Eu poderia processar esta gente fdp por pegar minha tutela e me mandar pra rua sem deixar nada pra mim. Ficaram com tudo que era meu por direito e me deram a rua como presente.

Mas receberam da vida doença e miséria, quer mais o que?

Dei um vestido de princesa nos quinze anos da minha prima e o que recebi no aniversário da minha filha foi um grande “pé no rabo”. Fui ajudada por amigos, grandes amigos irmãos.

Mas até que foi bom... acabou a mentira e no fundo eu estava cansada de ser peça de joguinho de mentira e falsidade. Falsos sorrisos, mentiras encobertas, maldade e fofocas.

Ali se você tem dinheiro, qualquer migalha pra dar você é bom, se não tem você passa a ser o inimigo, aquele que eles vão tentar destruir a qualquer preço.

Viver aprisionado em uma família destas é mesmo melhor seguir seu rumo e poder respirar a liberdade.

Não fui feliz naquele lugar depois que minha mãe se foi.

Me roubaram, me destruíram da forma que podiam fazer, me privaram de muitas direitos meus previstos em lei.

Meu tio me apresentou uma tutela aos meus 12 anos afirmando que quando eu fizesse 18 a responsabilidade dele estava terminada e eu teria que buscar meu próprio lar para morar. Ou ele não leu direito o documento que assinou ou estava mesmo a fim de me sacanear desde o inicio. Como bebia da fonte, devia estar com a cara cheia de cachaça quando assinou.

Porque tutor não é orfanato, era melhor ter me entregue ou a minha mãe biológica ou a alguma família que tivesse condições de me oferecer uma família de verdade.

Naquela casa eu só podia comer e beber em horários definidos pela gorda, sendo que os filhos dela comiam quando queriam sem pedir.

Nunca vou esquecer de quem eram as bananas e a farinha láctea. Eu tinha direito de comer uma por dia. APENAS UMA. Pão era só pela manhã. Biscoito era de maizena porque os recheados eram dos filhos dela. Até na mesa parei de comer, lembro que por pedir um pouco mais de molho no bife ela disse que eu só trazia confusão pra família me enxotou da mesa.

Ali vi pegarem mendiga na rua para trabalhar por comida, e ainda ser espancada. Vi ficar com filha de amigo e espancar a criança para trabalhar mais e mais. Vi a casa ser invadida por policiais atrás do filho deles. Vi a cadela deles apodrecer de câncer sem tomar um remédio sequer. Nem pra dor.

Aprendi com eles que ser ruim não é bom, pois a maldade vem sempre acompanhada da reação da vida. E não é bom.

Quando cresci, conheci meus direitos e não fui embora, mas a desgraçada da gorda sumia com todos os bichos que tive.

Eles sumiam misteriosamente quando eu saía para trabalhar.

Depois me impus contra isso e virei mesmo a rebelde, rejeitada, maior fdp. Dane-se eles, a última sacanagem que fizeram foi com a Luna.

Saí de cabeça erguida, mas levei tudo que me pertencia. Não fiquei com quase nada, não quero muitas lembranças não. Com eles aprendi o que é desapego, porque nunca sabia o que poderia ser destruído na minha ausência.

A última foi ouvir de um deles que estava com pena do pai doente, porque ele estava chamando minha filha pra comer. Parece piada, pois fomos expulsas da nossa própria casa e ninguém teve pena da minha filha nesta hora. Porque não tínhamos para onde ir. Mas sentiram pena de ver ele chamar alguém que não poderia estar ali.

A lei do retorno é certa, e nem precisa de outra vida pra pagar.

Pagam hoje e nem sentem, é uma pena... Porque o resgate amanhã é certo e vai ser bem pior.

Quanto a rainha do lodo?

Está lá sozinha na sua casa vazia, fria e sem amor. Se servindo com as migalhas que recebe e com os abraços falsos que a envolvem. Se queixando da família que não teve, sem nem perceber que tudo que ela teve na vida não deu valor e ainda jogou fora.

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